Slow Food

Para fechar a trinca de conteúdos slow, preciso falar de Slow Food, um assunto que já apareceu brevemente por aqui quando mencionei a maniçoba… Ah, a maniçoba.

Com a vida corrida que estamos levando (sim, ainda me incluo nisso apesar dos meus esforços em desacelerar), muitas vezes não conseguimos apreciar atividades simples como comer. Virou rotina almoçar na frente do computador, não é? O Movimento Slow Food tem como um dos principais objetivos a valorização do alimento e do próprio ato de se alimentar. Prestes a completar 32 anos de existência, ele tem se espalhado pelo mundo nos fazendo refletir sobre a influência que os alimentos têm na nossa vida e a influência que NÓS temos sobre eles.

Slow Food: “Alimento Bom, Limpo e Justo para Todos”.

Com o aparecimento de tantas franquias de comida rápida, muitas vezes padronizadas em pratos pré-determinados, nosso paladar foi se acostumando a esses sabores, estranhando tudo que seja diferente (aqui estou focando em alimentação do mundo ocidental, que fique bem claro). E no mundo atual, quem tem tempo para esperar ou mesmo preparar uma refeição lenta? A maioria de nós tem uma, no máximo duas horas de almoço, e não dá pra ficar criando pratos novos, saboreá-los, descansar e lavar a louça nesse tempo, não é? Proliferam pela internet receitas e tutoriais de como preparar toda a comida da semana em poucos minutos, “poupando um tempo precioso”… Poupando tempo para quê?

Comer, para além de ser algo imprescindível para a sobrevivência, deveria ser um ato prazeroso… E saudável.

iFood e derivados

Quando os aplicativos de entrega surgiram, a ideia era que eles nos ajudassem naqueles momentos em que mais precisássemos, mas com cada vez mais opções nas plataformas, tudo virou motivo para “pedir um iFood”. E, claro, a pandemia agravou isso, já que deveríamos evitar sair de casa.

O que o iFood não conta é que:

1. Ele não garante a integridade do alimento ou mesmo fiscaliza o local registrado na plataforma;

2. Precariza o serviço, usando a falácia de que “você é seu próprio patrão” e fazendo com que os entregadores trabalhem por sua conta e risco;

3. Pequenos restaurantes fecharam por não estarem na plataforma;

4. Pequenos restaurantes podem fechar apenas por estarem na plataforma, pois um banimento dela pode significar a perda total da clientela.

Não vemos de onde o alimento vem, não conhecemos sua cadeia de produção, não sabemos quem o prepara e, muitas vezes, nem vemos direito o que estamos comendo por não prestar atenção neste ato. Normalizamos a ignorância alimentícia.

Algumas semanas atrás eu desinstalei o app do meu celular. Confesso que o meu medo inicial foi de precisar pedir comida e não ter como… Meio doido isso, não é? Perto de casa tem restaurante, fruteira, mercado, tudo… Então por que esse medo do nada? Talvez seja uma espécie de vício que eu nunca tinha notado. De lá pra cá, procurei preparar mais vezes minhas refeições, mesmo que às vezes isso signifique só fazer uma crepioca e rechear com o que tem na geladeira. 😅

Maniçoba

Voltando a tocar no assunto “tempo”, vale sempre lembrar do caso da Maniçoba, um prato paraense que leva UMA SEMANA pra ficar pronto. Esse é o tempo que seu ingrediente principal, a maniva (folha de mandioca triturada), precisa cozinhar para deixar de ser venenosa. Nesse caso aqui, a paciência no preparo pode significar a diferença entre a vida e a morte. 😶

Por ser um prato “lento” e muito trabalhoso, ele acabou se tornando mais “cerimonial”, marcando presença em datas importantes como, por exemplo, no almoço do Círio — a maior festa dos paraenses:

“O cheiro da maniçoba sendo preparada toma conta de toda a cidade, antecipando o clima de festa (…) preparada a partir da junção entre cortes de suínos e folhas da mandioca brava moída, cozida durante sete dias seguidos para poder ser extraído o veneno da planta”.
(Portal oficial do Círio)

Como aderir ao movimento?

O slow food é formado por diversas pequenas ações, que vão desde optar por comprar de agricultores familiares (e que escapam da industrialização dos alimentos) a juntar um grupo para preparar suas refeições de forma coletiva. Nem sempre é fácil aderir totalmente ao movimento, então aqui vão algumas pequenas dicas de quem está começando também:

1. Conheça o produtor dos alimentos que você consome e, sempre que possível, opte por comprar legumes e vegetais em fruteiras de bairro que, normalmente, são abastecidas por pequenos agricultores. É claro que é necessário um cuidado redobrado com higiene nessa hora, mas ninguém compra uma verdura e jogar direto na panela sem lavar antes, não é?

2. Fuja dos “varejões” que são abastecidos pelo agronegócio. Além de prejudicarem a economia e o meio ambiente, esses alimentos costumam sem tratados com pesticidas que, a longo prazo, fazem mal para a saúde;

3. Cozinhe suas próprias refeições e aproveite cada momento delas, desde a escolha da receita até o consumo;

4. Se possível, tenha uma pequena horta orgânica em casa, mesmo que sejam só uns dois vasinhos de tempero. O alimento recém colhido tem um sabor diferente e conserva melhor seus nutrientes;

Meu pé de alecrim.

5. Valorize os produtos e pratos locais: Alimentação também é cultura e cada região tem seus hábitos. Conheça e prepare pratos típicos como forma de homenagear o local em que você mora;

6. Coma de forma não culposa, aproveitando o prazer que o alimento propicia e prestando atenção ao momento. Coma com os olhos, coma com as mãos, nariz e boca. Alimento é saúde.

Se não der pra fazer tudo duma vez, não tem problema. Muitos hábitos demoram para mudar, o importante é dar o 1º passo e não desistir, transformando isso num movimento constante.

E lembre-se que cozinhar é um ato de amor, preparar seu alimento com as próprias mãos e colocar energia nele é mágico.

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