Querido diário

Já faz um bom tempo que não escrevo aqui, mas dessa vez, não me sinto culpada. Embora não esteja publicando muitos textos, tenho escrito bastante — para mim. No ano passado, voltei a usar um diário — que é mais um semanário que diário — e isso tem sido terapêutico. Para além de registrar os acontecimentos da vida, tenho usado também para reflexões, externalizar minhas dúvidas e, claro, organizar meus pensamentos. O poder da palavra escrita na organização desse fluxo doido de um cérebro que nunca para é para lá de incrível.

Não é um grande diário ou mesmo digno de Pinterest, mas é meu e é feito com todo o cuidado possível. Tenho buscado criar cada página como um reflexo do meu humor, por isso muitas são bem coloridas, mas também existem páginas inteiramente escritas com tinta preta para demonstrar os momentos obscuros pelos quais passei. Infelizmente a vida não é um pêssego.

Um dos textos do meu diário.
Um dos textos do meu diário.

E, sim, é um caderno comum, com uma capa comum, daqueles que a gente compra na papelaria só porque achou bonitinho e depois não sabe o que fazer com ele. Eu já o tinha há meses em casa e resolvi começar a usar como um “Caderno do Bem Estar“, onde eu ia anotando as coisas que me faziam bem para, caso eu esquecesse delas, ter sempre um lembrete à mão. Meses se passaram sem nenhuma anotação e, durante uma época não tão legal, uma conversa com um amigo meu fez ressurgir a vontade de ter um diário, mas, dessa vez, sem medo de que alguém o lesse (o trauma de ter novamente meus segredos lidos por outra pessoa é muito real).

Capa do meu diário.
Capa do meu diário.

Nesse meio tempo, fui redescobrindo os prazeres de escrever para mim mesma, sem a intenção de mostrar para os outros ou mesmo publicar. Confesso que algumas das coisas que vêm aparecendo no meu diário devem render posts no futuro, mas tô fazendo tudo de forma orgânica, sem querer me afobar e esperando a hora certa para revisitar meus escritos. Também fui redescobrindo os benefícios da escrita à mão. Existem milhares de textos sobre isso na internet, mas gostei bastante desse aqui do IGN:

>>> LEIA AQUI: ESTUDO REVELA OS BENEFÍCIOS DE ESCREVER À MÃO <<<

PARA QUEM TEM PRESSA: Dentre os pontos levantados no texto, considero esses aqui como os principais:

  1. Melhoria da memória: Escrever à mão faz com que o cérebro retenha o formato das palavras, estimulando a memória visual;
  2. Exercita a criatividade: Além de estimular as habilidades espaciais, fazer a distribuição do conteúdo pela folha de papel é uma atividade criativa;
  3. Concentração, terapia e relaxamento: Ao focar na folha de papel, não nos distraímos com as notificações dos celulares, por exemplo, bem como damos início a um processo terapêutico de organizar os pensamentos e “colocá-los para fora”.

Curiosamente, nos últimos tempos andei lendo livros sobre mulheres que escrevem:

Bem-vindos à livraria Hyunam-Dong

Livro Bem-vindos à livraria Hyunam-Dong, de Hwang Bo-Reum

Yeongju decide largar o emprego e abrir uma livraria. É um sonho antigo e ela o coloca em prática se dedicando de corpo e alma ao projeto. Yeongju também decide abrir um blog e perfis nas redes sociais para manter seus clientes atualizados sobre os eventos que rolam no local, o clube formado pelos leitores e, claro, falar de livro. Aliás, é por escrever no blog sobre seus livros favoritos que ela é convidada a escrever uma coluna sobre o assunto em um jornal local.

Bem-vindos à livraria Hyunam-Dong
Hwang Bo-Reum
Editora Intrínseca | 2023

A Casa dos Espíritos

Livro A Casa dos Espíritos, de Isabel Allende

O romance de estreia de Isabel Allende traz a história da família Trueba por 3 gerações a costurando com a história política do país em que vivem (não é dito o nome do país, mas se parece bastante com o Chile). Clara, da 1ª geração, relata tudo que acontece em seus “cadernos de anotar a vida” e os organiza de acordo com os tipo de eventos e não de forma cronológica. Anos depois, os cadernos servem como guia para sua neta, Alba, mergulhar nos segredos e mistérios da família.

A Casa dos Espíritos
Isabel Allende
Bertrand Brasil | 2017 (lançado originalmente em 1982)

Johnny Panic e a Bíblia de Sonhos e outros textos em prosa

Livro Johnny Panic e a Bíblia de Sonhos e outros textos em prosa, de Sylvia Plath

Além das poesias, contos e romance, Sylvia Plath também ficou famosa por seus diários, que traziam o mundo visto por seus olhos. Em Johnny Panic e a Bíblia de Sonhos e outros textos em prosa, é possível ter uma ideia de como esses diários também eram usados como fonte de inspiração para seus textos. Um bom exemplo disso é o conto “A tal da Viúva Mangada” — escrito no outono de 1956 — que é uma referência direta a uma viagem que Plath fez com seu marido, Ted Hughes, poucos meses antes.

Johnny Panic e a Bíblia de Sonhos e outros textos em prosa
Sylvia Plath
Biblioteca Azul | 2020 (lançado originalmente em 1977)

Para quem quer começar a escrever para si:

Parar alguns minutinhos para organizar os pensamentos e colocá-los no papel de uma forma lógica ajuda a lidar com a ansiedade. Não é preciso ter um diário perfeito, super instagramável ou mesmo que pareça ter saído direto do Pinterest, o importante é que ele seja honesto, mesmo nos momentos em que precisamos relatar acontecimentos desagradáveis.

Quanto mais escrevemos, mais queremos escrever, vira um vício! Ao mesmo tempo, é normal passar dias ou até semanas sem escrever uma única página. Ficar se cobrando para realizar uma atividade terapêutica não faz muito sentido, não é?! Deixe as coisas fluírem e volte ao diário quando se sentir pronto. Só não vale abandoná-lo.

Planners e diários digitais podem ser boas ferramentas de produtividade e organização, mas se for possível, opte por um de papel porque, além de trabalhar diversas áreas do cérebro ao mesmo tempo, é mais prazeroso.

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