O que terá acontecido a Baby Jane?

O ano era 2017.

Um amigo meu tinha ido me visitar em casa (vocês lembram da época que isso era seguro?) e falou empolgadaço de um filme que ele havia acabado de descobrir, chamado “O que terá acontecido a Baby Jane?“. O filme era antigo, da década de 60, e as protagonistas se odiavam. Mas isso não era tudo, as intérpretes também se odiavam na vida real, o que deixava o filme ainda mais emblemático e tenso.

Mas ele não simplesmente falou, ele levou o filme para mim em um pen drive e, como acabamos conversando sobre várias coisas nesse dia, acabei não dando tanta atenção ao filme, mas o deixei no meu HD e ele sobreviveu a diversos backups e formatações.

A história tinha ficado levemente na minha cabeça durante esse tempo, mas esse ano ela explodiu.

Não foi muito por acaso que um texto sobre o livro caiu nas minhas mãos e aguçou a minha curiosidade, falando que era um “terror gótico”, um “suspense inigualável”, “uma obra prima”. Então decidi: eu leria o livro e depois assistiria o filme!

O livro

Meu exemplar de “O que terá acontecido a Baby Jane?” num belo dia de sol.

Com 320 páginas e contando com mais 3 contos do autor Henry Farrell, o livro publicado pela DarkSide Books já chama atenção pela sua capa: o desenho de uma cabeça de boneca quebrada. Ao longo de exatas 207 páginas, somos envolvidos pela história das irmãs Hudson. O narrador da história é onipresente e onisciente, nos dando detalhes dos pensamentos e motivações de todos os personagens.

“Baby” Jane Hudson foi uma criança prodígio que cantava e dançava em teatros arrebatando o coração de seus fãs. Mas o estrelato a transformou em uma criança mimada: logo no começo ela faz tolices e deixa seu pai constrangido na frente dos fãs enquanto exige um sorvete:

“EU GANHO O DINHEIRO, ENTÃO POSSO TER O QUE QUISER. VOCÊ NÃO PODE ME IMPEDIR.”

Baby Jane

Com o passar da idade, “Baby” Jane cresceu e não caiu no ostracismo total apenas por causa de sua irmã, Blanche Hudson, que acabou se tornando uma grande estrela do cinema na vida adulta. Os contratos de Blanche sempre continham uma cláusula de que Jane também teria um papel, mas era sabido por todos que Jane não tinha talento para atuar. Além de não ter talento, Jane andava se embriagando demais e comprometendo o trabalho e a própria imagem.

A carreira de Blanche chegou ao fim após um acidente de carro, que a deixou presa a uma cadeira de rodas, e as irmãs passaram a viver praticamente isoladas em uma grande mansão alimentando ódio e inveja recíprocos por anos.

A leitura é fluída e, por muitas vezes, me peguei querendo entrar na história para interferir no andamento dela. Alguns trechos são desesperadores, principalmente quando “Baby” Jane começa a mergulhar em seu passado e cria a ilusão de que pode trazer o show de volta, mesmo tendo por volta de 60 anos. Também me vi querendo entrar na história quando a vizinha aparece com boas intenções mas nas horas erradas (ou certas, por assim dizer).

O final fica um pouco em aberto, então me vi na URGÊNCIA de assistir logo o filme, torcendo para ele ir um pouquinho além na história.

O filme

Gravado na década de 60, quando os filmes já eram coloridos, “O que terá acontecido a Baby Jane?” já chama atenção por ser em preto e branco. Bette Davis dá vida a “Baby Jane”, enquanto a sua arqui-inimiga e rival, Joan Crawford, dá vida a Blanche. As duas atrizes são simplesmente brilhantes.

Após uma pequena introdução, o filme já mostra o acidente enquanto os créditos ainda estão subindo na tela (e a boneca quebrada aparece no carro). Logo em seguida começamos a notar que as irmãs Hudson vivem um relacionamento de interdependência completamente doentio e, que em alguns momentos, elas discutem pelo dinheiro que é ganho.

Joan Crawford como Blanche Hudson e Bette Davis como Jane Hudson.

Em um determinado momento, quando é revelado que Blanche quer vender a casa, Jane se rebela e diz que ela não fará isso porque ela (Jane) é quem tinha comprado aquela casa. (No livro é dito que a casa é comprada por Blanche, mas isso não fica muito claro no filme, o que torna este conflito ainda mais interessante).

Elvira, a diarista, se mostra preocupada com as irmãs porque Jane tem bebido muito e Blanche corre risco… Mas Blanche não dá bola para isso e tenta diminuir os problemas causados por sua irmã, que incluem esconder cartas dos fãs. O quarto de Blanche fica no 2º andar, o que impossibilita seu contato com o mundo exterior, ficando ele resumido às poucas conversas que ela tem com Elvira.

Durante as duas horas de filme podemos acompanhar a loucura/psicose de Jane indo a novos níveis, mostrando que ela se distancia cada vez mais do mundo real. Vale mencionar que ela contrata um músico profissional porque pretende voltar a apresentar seus números musicais nos palcos (apesar de ninguém mais se lembrar dela).

Jane Hudson com sua boneca de “Baby Jane”.

Mas e aí?

Tanto o livro quanto o filme são sublimes e se complementam. Para quem ler o livro e, logo em seguida, assistir o filme, será possível notar algumas pequenas mudanças que fazen a história fluir muito bem, inclusive o final (apesar dele continuar em aberto).

A internet está recheada de informações sobre os conflitos protagonizados pelas atrizes e que ajudaram na criação do “mito” Baby Jane. Vale destacar aqui que:

1. Joan Crawford já era uma estrela em decadência quando viu que poderia voltar aos holofotes com esse filme;

2. Foi a própria Crawford que sugeriu o nome de sua arqui-inimiga e rival para o papel;

3. Bette Davis teve um grande peso na caracterização de Jane e é possível notar o trabalho feito com sua maquiagem, mesmo com um filme em preto e branco;

4. O último conto de Farrell no livro destaca a importância das cores no cinema, o que torna um pouco irônica (e genial!) a escolha de produzi-lo em preto e branco;

5. A DarkSide publicou um texto bem legal com algumas das curiosidades sobre o filme.

OBS.: A DarkSide também publicou um texto sobre o fim da briga das atrizes e vale MUITO a pena ler.

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