Pequenas realidades digitais

Ano retrasado, ainda no “início da pandemia”, li “Pequenas Realidades” da Tabitha King e fiquei confusa e fascinada pelo livro. Na época até rascunhei uma resenha que nunca publiquei (um dia esse dia chega!), mas já faz um tempo que quero falar dele de um outro ponto de vista.

Para quem ainda não a conhece, Tabitha King é autora de livros de ficção, não-ficção, contos, poesias e também já co-escreveu o roteiro de um episódio da série Kingdom Hospital. Ela também é uma filantropa que apoia causas na sua comunidade do Maine e muita gente já ouviu falar que ela salvou “Carrie, a Estranha” do lixo, o que não é mito. Ah, Tabitha é casada com Stephen King e tem 3 filhos, sendo dois deles escritores.

Então, diferente do que foi publicado um tempo atrás, ela não é apenas a esposa de Stephen King.

Mesmo com esse currículo pesadíssimo, Tabitha não era muito conhecida no Brasil e, o motivo principal, é porque não tínhamos livros da autora traduzidos para o PT-BR. Tá bom, até tínhamos, mas apenas um e só era encontrado em sebos, porque ele foi publicado NOS ANOS 80.

Então, quando soube que a DarkSide® Books estava se preparando para publicar o livro, surtei.

O livro, ligeiramente confuso no início por conta da quantidade de informações que é despejada no leitor, se mostrou uma agradável surpresa e me fez mergulhar em uma história que mostra até que ponto uma pessoa pode ir por uma obsessão.

“Neste livro, conhecemos a socialite Dorothy Hardesty Douglas, filha de um antigo presidente norte-americano, que vive na redoma de seu legado de sucesso. Entusiasta de miniaturas, ela possui uma réplica da Casa Branca, perfeita em seus mínimos detalhes. Ao conhecer um homem chamado Roger Tinker, que trabalhou para o governo em um projeto secreto, ela descobre uma maneira fantástica — e um tanto perturbadora — de decorar sua casinha.”

Pequenas Realidades – DarkSide Books.

Quem assistiu “Querida, encolhi as crianças!” já consegue ter um pequeno vislumbre de como a história vai se desenrolar mas, no geral, a idéia de Dorothy é encolher objetos reais para deixar a sua Casa Branca perfeita.

Que é mais ou menos o que fazemos nas redes sociais.

Cada uma das nossas postagens nas redes sociais é uma janela para a nossa vida: damos a chance dos nossos vizinhos e amigos verem o que estamos fazendo, mas uma foto, vídeo ou tweet é só uma pequena amostra da realidade. Encolhemos nossa vida o bastante para ela caber numa tela de celular, que doido!

A nossa busca por exibir uma vida perfeita no feed, o clique que vai nos dar muitos likes, o post que vai gerar engajamento, só mostra o quão obcecados estamos por mostrar os melhores ângulos de nós mesmos e simplesmente ignorarmos o que não cabe ali.

E isso pode gerar muita frustração.

Quantas vezes já nos pegamos olhando para aquelas vidas perfeitas e pensando que gostaríamos de ter vidas iguais? São fotos que mostram paisagens belíssimas, corpos perfeitos, pratos que parecem super saborosos, mas e o resto, cadê? A incapacidade de ter uma vida daquelas pode nos gerar muita frustração, raiva e/ou tristeza, principalmente nesses tempos sombrios que vivemos de pandemia.

E ainda nem comecei a falar do monte de filtros e edições que usamos agora, algumas pessoas acabam ficando completamente irreconhecíveis nas fotos! Quem não se lembra das polêmicas envolvendo determinados filtros de Instagram que rolou um tempo atrás? Para mim, é pavorosa a ideia de um filtro que simula marcações de cirurgias plásticas, por exemplo.

Não sejamos Dorothy Douglas. A vida é muito mais que essas miniaturas, thumbs, avatares. A vida é enorme e não cabe no feed.

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s

Crie um site ou blog no WordPress.com

Acima ↑

%d blogueiros gostam disto: